A Luta do Século
O UFC 157 realizado em Anaheim, nos Estados Unidos, entrou para a história. O evento foi o primeiro do Ultimate a ter uma luta entre mulheres, Ronda Rousey vs. Liz Carmouche e me fez lembrar uma luta ocorrida na minha querida Aimorés.

Na década de 60, como já disse anteriormente, Aimorés não disponha praticamente de nenhum tipo de diversão. Mas para alegria geral, finalmente a Televisão havia chegado. Se é que poderia chamar “aquilo” de Televisão. Era bem diferente das modernas televisões de hoje com tela de LCD, LED e até com acesso a internet. O som falhava, não tinha imagem, via-se apenas alguns vultos, mesmo assim com muitos ajustes e Bombril na antena. Colocava-se também na frente da tela uma película tricolor para tentar melhorar a imagem e dar a impressão que a TV era colorida. Com todo esse sacrifício, e também por falta de opção o programa preferido era o Telecatch com Teddy Boy Marino, Verdugo, Tigre Paraguaio, Rasputim e outros. Telecatch era um programa criado na extinta TV Excelsior do Rio, dedicado à exibição de combates de lutas que pareciam verdadeiras, mas eram combinadas e coreografadas.

Um belo dia, chegou em nossa cidade um Circo anunciando em sua programação um “telecatch” de mulheres. Todo mundo queria ver o “Telecatch” principalmente aqueles que não possuíam a tal televisão. Começou a luta e o público que não estava acostumado com aquele espetáculo “ao vivo” percebeu de imediato que o negócio não era “à vera” e começou a vaiar. Depois de alguns minutos da estrondosa vaia, uma das lutadoras, visivelmente irritada, interrompeu a luta e desafiou qualquer um homem da plateia para enfrentá-la. Fez-se silencio sepulcral. O espetáculo acabou e o público ofendido e humilhado por não ter aparecido nenhum varão disposto a enfrentar a lutadora, se retirou sem fazer nenhum comentário.

No dia seguinte, da Rua Seca à Barra Preta não se falava outra coisa, além do que, tinha também a gozação daqueles que lá não estiveram.

De tanto se comentar o ocorrido, o assunto chegou aos ouvidos de “LIDIM” que trabalhava como estivador na Rodoviário Astória e que apesar de ser conhecido no diminutivo não tinha nada de pequeno. Possuía uma descomunal força física, que lhe permitia carregar quatro sacos de cimento de uma só vez, sendo dois na cabeça e um embaixo de cada braço. Depois de meditar e tomar umas “pinguinhas” no Bar Gato Preto, “LIDIM” também se sentiu ofendido e resolveu aceitar o desafio. O dono do Circo, muito esperto, de olho na bilheteria, marcou para o sábado seguinte a realização de evento, criando uma enorme expectativa. A ZYV-28 Rádio Cultura de Aimorés anunciava de hora em hora aquela que seria a luta do século.

Enfim chegou o grande dia. O circo estava lotado. Não cabia mais uma viva alma, nem nas cadeiras e nem no poleiro, inclusive, tivemos extrema dificuldade para “furar a lona” (entrar sem pagar). Depois de toda programação normal do circo, foi anunciada a ultima atração: A luta, que seria no estilo livre, até a desistência de um dos oponentes. Soou o gongo e “LIDIM” embora tivesse a força, não tinha nenhuma técnica nem prática do ramo. Confiando em sua força bruta, partiu pra cima querendo encerrar o combate o mais rápido possível. Foi recebido com um golpe de judô que o fez girar no ar e cair de costas no tatame. Ainda meio atordoado, ele viu que precisava mudar a sua tática, pois se ficasse de pé, iria cair novamente. Saiu de quatro pés e abraçou a lutadora pelas pernas, e derrubando-a passou a torcer um de seus pés. Impossibilitada de se livrar daquela “chave” e já sentindo bastante dor, a lutadora bateu no tatame, sinalizando que havia desistido. Acontece que Lidim não conhecia regras nem sinais convencionados, só pensava em não perder e continuou torcendo o pé de sua oponente que gritava desesperada.

Os organizadores invadiram o Ringue, interromperam a luta e constataram que a lutadora estava com o pé quebrado e pela intensidade da dor, tinha sofrido uma incômoda incontinência urinária. “LIDIM” foi chamado de ignorante de animal e outros adjetivos menos qualificativos, mas foi declarado vencedor e aclamado pelos presentes. Para nós era o que importava, o nosso herói tinha lavado a honra dos homens Aimoreenses com sangue, ou melhor, com urina. O Circo foi embora no dia seguinte e a meninada cantava feliz da vida: Hei, hei, hei, “LIDIM” é o nosso Rei.

Por: Cecílio Andrade de Oliveira

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