O Crime Não Compensa?
Quando vejo na mídia as falcatruas que assolam o meu Brasil, me envolvo em conjecturas pensando sobre o motivo de não estar também me locupletando com a situação hodierna, isto é, ser ladrão. Segundo as más línguas, quem nasceu em Barra de São Francisco, foi registrado em Pancas e passou a adolescência em Aimorés, tem todos os predicados para pertencer ao mundo do crime na categoria de homicida, embora não seja tão lucrativa quanto a classe das figuras carimbadas que estão em evidencia. Perdido nesses pensamentos lembrei mesmo que se eu quisesse descambar para esse lado, Dona Rita, a minha saudosa mãe, não permitiria, pois desde a minha tenra idade, me impulsionou para o caminho certo, com orientações e conselhos me induzindo para os bons costumes. Orientações e conselhos que didaticamente vinham, invariavelmente, acompanhadas de alguns afagos carinhosos com que tivesse à mão, tais como: vara de guaxima, fio de ferro e mangueira de chuveiro ou de jardim, sem qualquer predileção. Outro fator que me impediu de partir para ilicitude foi o zeloso policiamento da Cidade. Na década de 60, Aimorés era uma tranquilidade, um verdadeiro paraíso. Não tinha amigos do alheio, seus habitantes viviam despreocupados, pois contavam com a eficiência profissional do Sargento Beligolli, do Cabo Durval e do Soldado Rubens Clementino, integrantes da temida e respeitada Polícia Mineira, que não tinham condescendência com os praticantes de furto ou apropriação indébita. A única preocupação da população era com a saúde, mesmo assim, guardada as devidas proporções, era bem atendida pelo Hospital São José, Casa de Saúde S. Lucas e o SESP – Serviço Especial de Saúde Pública. Os remédios, atualizados na medida do possível, eram adquiridos na farmácia Cipriano, no Centro; na Farmácia Andrade, em frente o Armazém do Seu João de Souza, hoje bar do Zé da Cachorrinha e na Farmácia Carellos, localizada na Igrejinha ao lado do antigo cinema. Certo dia, dois meliantes, oriundos da Capital do Espírito Santo, vislumbrando facilidades, resolveram fazer a praça e arrombaram a Farmácia Andrade de propriedade do Enock Andrade. Pelo “modus operandi”, Sagto Beligolli e sua equipe logo perceberam que os ladrões não eram nativos e pra chegar a autoria, identificar e deter os elementos foi de imediato. Uma vez detidos, foram conduzidos até o final da Rua Seca, algemados e carregando seu instrumento de trabalho: uma alavanca. Devidamente escoltados e caminhando à frente do Jeep da Policia Militar tinham que gritar incessantemente: “Foi com esta alavanca que arrombei o cofre da Farmácia Andrade”. Durante o percurso, isto é da Rua Seca até a Cadeia Pública localizada no final da Rua Camilão, aquele cortejo humilhante e ao mesmo tempo exemplar, era acompanhado por crianças que viram naquele acontecimento a oportunidade de projetar o futuro e ver que o crime não compensa (será?)

Dos ladrões não se ouviu mais falar. Dizia-se à boca miúda que eles tinham as mãos amarradas às costas e eram matriculados coercitivamente numa escola de natação, cujo teste consistia em serem atirados no canalão, parte mais funda do Rio Doce, com a obrigatoriedade de atravessar nadando a caudalosa Cachoeira do Raio. Em todos aqueles anos em que residi em Aimorés, não tive notícia de nenhum concludente daquele curso de natação.

Infelizmente hoje, não temos mais o Sagto Beligolli, já falecido, e tão pouco o canalão e a cachoeira do raio, pois a Samarco acabou com o que restava do Rio Doce.

Por: Cecílio Andrade de Oliveira

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