Turismo Forçado
Durante a década de 60, na nossa adolescência em Aimorés - MG, eu e meu irmão Silas (Secretário de Finanças do GOB-ES), praticamente não dispúnhamos de nenhuma diversão. A televisão ainda não havia chegado, a energia elétrica acabava às 22:00 horas, o cinema tinha sido quebrado, pois o proprietário Sr Aloys Benz anunciou os “Dez Mandamentos” e por não ter chegado a cópia do filme exibiu os “Três Patetas”. Resumindo: não tínhamos mesmo o que fazer. A nossa atividade se limitava a uma “peladinha” no campo do Ginásio, ao tradicional banho no Rio Doce, e ao nosso passatempo preferido, que era freqüentar a Estação Ferroviária.

Embora, para alguns não fizesse muito sentido ir a Estação duas vezes todos os dias, para nós desocupados e sem qualquer perspectiva de emprego, era de suma importância. Pois era a nossa única maneira de tomarmos conhecimento com o “mundo exterior”, folhear as revistas e jornais fresquinhos das capitais, olhar as pessoas indo e vindo e sentir o cheiro delicioso do filé c/ fritas do carro restaurante, que nos deixou a frustração de nunca tê-lo degustado.

Era também personagem integrante daquele cenário e notada por todos transeuntes, uma figura que trajava uma farda cáqui, impecavelmente engomada, calçava um coturno marrom, não menos reluzente, e desfilava sistematicamente de um lado para o outro da plataforma. Mantinha as mãos entrelaçadas às costas e chocava os calcanhares um ao outro, demonstrando com altivez e imponência a sua autoridade.

Era o ZÉ BERNARDO. Soldado da então temida Polícia Mineira que, no entanto, por ser pouco temido e não muito corajoso, arranjara uma “boquinha” junto Estrada de Ferro Vitória a Minas para fazer a segurança do embarque e desembarque dos passageiros na nossa “Janela para o Mundo”.

E Assim o tempo ia passando.

Certo dia, em pleno Verão, calor sufocante, férias escolares, trens subindo e descendo lotados, lugares sendo disputados aos tapas e empurrões. Era um verdadeiro inferno. E naquele cenário Dantesco, apareceu uma senhora grávida arrastando uma mala, uma trouxa de roupa, uma criança no colo e outra de 4 anos de idade, aproximadamente, segurando a barra de sua saia. Como era praticamente impossível embarcar naquela situação, solicitou o auxilio do nosso Segurança.

Muito solícito e tendo enorme satisfação em atender os passageiros, Zé Bernardo, valendo-se de sua enorme autoridade e com muito “dá licença” conseguiu resolver o problema.

Eis que de repente, o Sr. Waldir Gryllo, Chefe da Estação, faz o sinal avisando que o comboio estava liberado para partida. O maquinista aciona o apito da locomotiva e começa deslocar a composição lentamente. Foi quando o nosso herói percebeu que ainda estava exatamente no meio daquele comprido vagão.

Desesperado olhou para os lados procurando uma saída.

Não havia.

Era gente demais.

O trem aos poucos ia aumentando a velocidade e a angustia sufocava-lhe o peito. Conseguiu com muito esforço chegar a uma janela, onde iria pedir para alguém, que pelo amor de Deus, parasse o Trem. Foi quando no meio daquela multidão conseguiu enxergar a figura salvadora do Sr. Waldir e gritou:

Seu Waldir, eu tô indo!!!!!
O Chefe da Estação, sem perceber o que estava ocorrendo, laconicamente respondeu-lhe:
BOA VIAGEM, ZÉ!

E foi assim que Zé Bernardo conheceu Itueta a próxima Estação.

Por: Cecílio Andrade de Oliveira

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