O grito silencioso das viúvas
Seria possível o silêncio gritar? Se grita, como é possível ouvi-lo? Dizem que o silêncio fala mais que palavras. Isso percebe-se a medida que nos propomos a meditar na importância de tantos irmãos, cunhadas, sobrinhos e sobrinhas que diariamente enfrentam as mais diversas dificuldades e se mantém no silencio, ainda que desejem gritar aos quatro cantos do mundo e dizer, ei estou aqui e preciso de você. Para muitos, calar-se é a melhor, se não a única reposta que determinados momentos exigem. Mas, o que fazer para ecoar o grito silencioso e fazer que as pessoas o ouçam se é tão difícil percebê-lo? A sensibilidade é sem dúvida a melhor forma de percepção, mas quantos a têm? Quantos estão dispostos a desenvolver essa tal de sensibilidade? Como é difícil ser ou tornar-se sensível!

Talvez por conta da velocidade que empreendemos no cotidiano em cumprimento das próprias necessidades e de utilizarmos apenas os ouvidos para ouvir seja o principal impedimento, quando nem sempre a capacidade de ouvir é suficiente para perceber o som alarmante e incômodo dos gritos que o silencio faz tinir em alto e bom som. Talvez as preocupações com as individualidades sejam também outro fator impeditivo para percebermos o ensurdecedor barulho do silencio.

Tem-se presenciado em maior ou menor volume o abandono de muitas cunhadas viúvas e até irmãos. E, esse proceder tem se tornado corriqueiro, dando a entender que o falecimento do irmão desliga automaticamente a viúva do meio e da convivência maçônica. Por vezes nem são convidadas para as reuniões festivas, muito menos são visitadas para conhecer como estão vivendo e convivendo com sua viuvez. Há, e os sobrinhos e sobrinhas menores que perderam a referência dos pais e são forçados ao isolamento? É isso mesmo ou porventura temos esquecido que os recebemos como sobrinhos e sobrinhas? Onde ficaram o respeito, a consideração e o reconhecimento pelos relevantes serviços que as nossas cunhadas prestaram a maçonaria e aos irmãos em particular, seja pelo exercício do labor gratuito nas organizações das reuniões festivas, palestras em eventos da organização, orientações a família maçônica e bons exemplos de esposas, mães, filhas e cunhadas durante o tempo que o irmão vivia e convivia entre nós? Será que é necessário que as nossas cunhadas viúvas literalmente ajoelhem-se diante do trono dos Veneráveis das Lojas a que pertenciam seus esposos e mendiguem socorro? Esquecemos tão facilmente da promessa que fizemos ao iniciarmos nos Augustos Mistérios da Maçonaria e que encontra-se registrado na página 130 do ritual de aprendiz/2009 que diz: "Lembramos também, que deveis dedicar parte do vosso trabalho maçônico em socorrer os necessitados, as viúvas e órfãos, e de todo o coração, cumprindo assim não só um dever maçônico, como também uma das finalidades dessa Loja".

Supõe-se que uma parcela significativa das nossas cunhadas viúvas não tem merecido afago e apoio. Há de se perguntar, e as órfãs e órfãos?

Não bastasse registros de falta de apoio a muitos irmãos vivos, pior é não assistir às viúvas e órfãos que na grande maioria das vezes, tudo o que precisam e desejam, é apoio moral e de interação com a comunidade maçônica, não como favor ou benevolência, mas como justo reconhecimento à própria cunhada como parente próximo, e a devida consideração ao irmão que foi transportado para o oriente eterno.

É nossa humilde sugestão, que as Lojas maçônicas federadas aos GOB-ES criem comissões permanentes composta de três irmãos e que façam-se acompanharem das respectivas esposas para oferecer as cunhadas viúvas, os órfãos e órfãs a necessária assistência através de visitas periódicas, e que sejam convidadas de honra nas ocasiões festivas das Lojas, bem como seus filhos(as) e mantenham cadastro atualizado de endereços residenciais, de trabalho, endereço de e-mail e telefones para contatos.

Considerando que a cunhada viúva case-se novamente, que não cesse o apoio, assistência e interação com a comunidade maçônica, pois com o bom exemplo, a instituição poderá vir a receber em suas fileiras o novo esposo como irmão, o que deve ser considerado não apenas normal e seqüencial à vida, como também uma vitória para a maçonaria como instituição integralizadora e protetora da família. Não tem sido assim com os nossos irmãos viúvos, legalmente separados ou divorciados, integrando suas novas esposas à comunidade maçônica? Presumo que este artigo gere algum desconforto, discussões e até posições contrárias ao nosso pensamento, porém não é este o objetivo que desejamos atingir, mas que reflitamos carinhosamente sobre o conteúdo desenvolvido. O que se propõe é uma criteriosa reflexão a respeito do tema apresentado, que acredita-se seja relevante e merecedor de especial atenção pela Ordem Maçônica, por cada irmão e em particular por cada Loja. É claro que ao produzir esta peça, não tenho a intensão de generalizar, pois sabemos que várias Lojas tem tido este cuidado, mas de fazer um chamamento acerca do assunto.

Hoje existimos, amanhã não sabemos. Nossas esposas poderão serem as próximas viúvas e nossos filhos e filhas os próximos órfãos e órfãs.
O texto bíblico diz: “Desperta, tu que dormes, e levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará” (Efésios 5:14).Que o GADU ilumine nossas mentes, incomode nossos corações e “nos ensine a contar nossos dias de tal maneiras que alcancemos corações sábios” (Salmo 90:12).

Reflitamos, pois.

Por: Joaquim Camilo Filho

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